quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Não falo daquelas aqui presentes...

O Teatro nos possibilita vivenciar emoções e sentimentos que seriam incapazes de serem sequer imaginados, caso não nos dispuséssemos a servir esta Arte que nasce do próprio homem, sua representação da vida e suas loucuras na representação dos sonhos. E do que nos vale vivenciar emoções de outrem, distantes de nosso mundo, perversos, com qualidades e defeitos que, muitos, não possuímos? Acredito que tenho uma das possíveis respostas: Ao nos aproximarmos do filho morto pela ditadura militar da Colômbia na cena de Henrique Buenaventura, em "La Autopsia", ou ao espiarmos pela fresta da porta, a menina enclausurada e isolada da sociedade desde o nascimento até seus dezoitos anos de idade, em "Escola de Mulheres", de Molière, ao entrarmos no quarto da Sônia do Nélson, é que nos tornamos mais complacentes com a vida humana e com o próximo humano, àquele que nos rodeia. Aqueles humanos que jamais conceberiam o Teatro como algo capaz de transpor a própria existência, se materializando na existência de alguém que nem sequer existiu.

Mas, por ser, criador e criatura, indissociáveis, a sua essência é a mesma, tornando-se em real o que se imaginou, pelo simples fato da imaginação não nascer do nada, mas das experiências vividas realmente pelo seu criador.


Dessa forma, entendemos as fraquezas humanas, solicitudes, devaneios, desvios, obsessões, egocentrismos, deformações, daqueles que as possuem ou as praticam e não nos sentimos no direito de julgá-las, pelo fato de entendermos, e aqui não está escrito aceitarmos, suas fraquezas ou virtudes.

Na peça "O Urso", de Tchekhov, Smirnov se exalta ao externar seus pensamentos sobre as mulheres de sua época e de todas as épocas: "Amei apaixonadamente de todas as maneiras. Gastei com este sentimento sublime metade da minha vida e das minhas posses, mas agora, agora muito obrigado, agora não dou mais uma moeda sequer. Pendurem-me num prego com as pernas para o alto se uma mulher for capaz de amar alguém além do seu próprio cachorro! Olhem para a alma delas, o que se vê? Um crocodilo dos mais ferozes! Não falo daquelas aqui presentes, mas de todas as mulheres."

É seu comentário.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Janeiro finda

O primeiro mês do ano já termina... Ufa! Início de ano vem com papel de presente amassado, pedaços da ceia esquecidos no freezer, vestígios de areia e sal, o corpo um pouco mais pesado. Renova-se os objetivos e os projetos, ou, no nosso caso, aprofundamos o que até então tratou-se de maneira superficial. O espetáculo começa a caminhar agora, de maneira mais consciente, com força nas próprias pernas, treinadas pela necessidade da melhora de todos os envolvidos no processo. O espetáculo, quase maduro, transborda o pensamento para além das coisas corriqueiras e diárias que nos envolvem e nos faz dar um passo a mais, nos faz experimentar outros sabores de olhares e sorrisos, de silêncios e despedidas em palco, fazendo-nos sentir outros gostos até então desconhecidos.

Dessa forma, os personagens estão mais vivos do que nunca, pois já não são os mesmos que se mostraram há seis meses atrás; mudaram de opiniões, viveram outros cenários, se conheceram melhor e mais.



E nesse auto conhecer irreal do personagem que existe na exata medida em que o ator existe é que nos descobrimos tomados do poder da Vida, que gera a Vida e que com uma simples decisão é aniquilada para que outras Vidas possam surgir em seu lugar, em outros cenários, em outros tempos, envoltos sempre pela magia do espetáculo.

Ainda bem que é assim.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A semente


Rompe, incontinente, ferida da terra, submergindo do centro vermelho das brasas, do núcleo da vida; jorrando, explodindo, em milhões de gotas, meteoros, chuva de fogo. E cada partícula carrega uma semente de vida.

Paremos para ver que pedra é esta que caiu bem perto, aqui. 


Brilha incandescente, emana calor quase que insuportável e seca o ar em toda à sua volta. Mas, aos poucos, bem devagarzinho, vai esfriando, lentamente, deixando ver pedra de vidro em meio a labaredas e fumaça. Depois de fria é diamante gigante de vidro, cristal transparente, translúcido, de uma lucidez ímpar, e olhando atentamente, bem pertinho, percebe que algo vive dentro dele. Que bate um coração bem no centro da pedra e que um novo ser está a ser gerado ali. Começa a se mexer, mas bem reteso, como se os músculos também de pedra fossem, como se o cristal enrijecido, crosta brilhante, se lhe trancasse os pulsos e retivesse qualquer intenção de movimento. Mas aos poucos, bem devagarzinho, gota a gota, a pedra dura vai se dissolvendo. Um pouco de pedrinha que se vai, e mais um pouco e mais outro e outro. Enfim, vê-se liberto, braços abertos, cabeça erguida, pernas em riste, pronto pra enfrentar qualquer batalha.



Já nem precisa de armadura, munição ou armamento, já nem precisa estar presente no momento, contanto que reviva cada gesto, cada olhar de esgueio e o resto é se deixar fluir. Não há segredo, quando se tece a idéia, a idéia cria vida e vai viver por nós a cena. No texto dito pelo ator que o interpreta com a verdade que só a ele interessa, irá contagiar o outro, certamente, e estando posto o jogo, só nos resta jogar, brincar e ser felizes, ainda que tudo acabe quando as luzes se apagarem, quando o último sair do teatro, quando as cortinas se fecharem sobre o palco.


Faça-se o Ator e o Ator foi feito!


"A mais eficiente organização dos homens ainda é um simples arremedo da mais singela disciplina determinada pela administração sideral dos orbes, sistemas solares e das galáxias do cosmo. Um mentor que atinge determinada ciência ao deitar e acorda sabendo mais todos os dias, viaja para dentro de si mesmo e já não morre de doença comum aos humanos, morre lentamente ao não caber em si o vôo da gaivota."  (Ramatís).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Com vocês, o Diretor


Fomos para a praia felizes da vida, afinal de contas o Diretor da peça estava definido. Não poderia haver desfecho melhor. Nosso convite foi aceito e teremos nosso amigo, diretor, artista plástico, compositor, autor, ator, poeta e sabe Deus o que este homem sabe fazer, CLAUDIO KOCA!
Tivemos a oportunidade de nos conhecer, já lá se vão vinte e tantos anos, nas atividades culturais da cidade de Jacareí. Ator disciplinado, mantem o nome de uma de suas primeiras personagens vividas em palcos da terrinha, quando da montagem de "O Pagador de Promessas", na década de 90 do século passado. De lá pra cá só cresceu e foi trilhando seu caminho até se firmar como um dos expoentes teatrais na cidade e região, consequencia de sua estética refinada, criada pelo homem de sorriso simples e fala cantada.

Desenvolve sistematicamente há mais de dez anos cursos de Iniciação Teatral abertos à juventude da cidade. Esse movimento contínuo, embasado em uma metodologia de trabalho que envolve mais de uma dezena de pessoas por turmas, contribuiu para que a cidade proliferasse em talentos cênicos, muitos advindos dos cursos de Iniciação Teatral do nosso Diretor. Compromisso cultural com a sociedade.



Desenvolveu na cidade ao longo de quinze anos trabalho de reflexão e popularização do consagrado dramaturgo Nelson Rodrigues tendo, juntamente com sua Companhia, a "Cia de Ofertantes", apresentado inúmeros espetáculos na cidade, região e estados, destacando-se os sucessos "Valsa Nº 06", "A Serpente", "Anjo Negro", "Perdoa-me por me traíres", entre outros.


Claudio Koca
Negro consciente, engajado nas lutas dos povos africanos, dos irmãos escravos, estudioso dos orixás, kizombas, sambas, capoeiras, umbandas e candomblés.



Agora Tchekhov se apresenta como novo desafio. Como diria Mestre Coca: "Ah, lá a festança já começou é de hoje! Capoeira, roda de samba... Está bom que está danado!".


Quando uma trovoada tremenda desaba sobre a praça...
Êparrei! Minha mãe!